Portapalavras

Contos, poemas, reflexões... Linhas escritas sobre o assunto que toca, no momento que incomoda e na tristeza fértil. Artigos, sínteses, desenho amador, ensaios de moda e imaginação ao longo da vida.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Reflexões...


Um dos segredos da vida é sofrer e não se tornar uma pessoa pior.


Não é obrigando alguém a fazer algo que mostraremos ser esse algo importante.


Quem tem pena é galinha, quem tem dó é nota musical.


Quem fica parado é preguiça, quem vive no passado é ópera.


O intelecto pacificou a humanidade. Mas chega um ponto em que, o que impede um ser humano de matar outro não é a lógica, é a moral.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Quem a gente pensa que é

A religião é excludente. A religião é um grupo de pessoas que se julga melhor porque acredita em x, y, z e todas as outras pessoas não. Por que afinal tudo que a religião traz de bom para os fiéis torna-se tudo de ruim quando a questão é lidar com a diferença? Quando a questão é lidar com quem pensa diferente ou com quem não é da mesma religião? Porque a religião é excludente. E a exclusão pode não resultar em nenhum conflito quando estão todos em seus devidos lugares, mas é potencial quando se trata de manter os fiéis na canga, quando se trata de vencer no mercado religioso. Até mesmo para os espíritas que se dizem não-proselitistas.
Este texto começou numa conversa inocente em que me vi diante da pequena, mas nem por isso inocente, ilusão dos espíritas ao se acharem cristãos. Ora, os espíritas não são cristãos, não acreditam que Jesus é o redentor. Ora, os espíritas não são cristãos, não acreditam que Jesus é o Deus vivo ou a presença de Deus na Terra. Claro, mas, puro detalhe, os espíritas kardecistas brasileiros construíram toda sua religiosidade, todas as suas práticas religiosas sobre os ensinamentos de Jesus, os evangelhos. O judaísmo não é todo baseado nos ensinamentos de Jesus, o islamismo também não. Conceitualmente falando, vale a pena para um sociólogo sustentar que os espíritas não fazem parte da parcela cristã da sociedade brasileira? Creio que não. Mas para a teologia católica, para a teologia calvinista, etc. ó sim, faz muito sentido. Água e óleo não se misturam. Contudo, parece-me que dizer que os espíritas não são cristãos, apesar de se identificarem como tal e de professarem os ensinamentos de Jesus, é uma arbitrariedade próxima a dizer que o budismo não é religião porque os budistas não acreditam em Deus.
Outro dia, lia um jornalzinho de igreja tal, falando sobre o Sudão. Tudo ia bem até ler mais ou menos que o país já teve maioria cristã, mas que hoje os cristãos vivem espremidos entre os muçulmanos e os ignorantes “apesar de bem intencionados” “cultos demoníacos” (as religiões tribais). Em seguida reclama-se que o Estado é islâmico, baseado na sharia (parte do alcorão) e que há pouco espaço para os cultos cristãos. Além disso as tribos ficam matando umas às outras. Pobre do Sudão, vamos “orar” por ele. Ah! Então quer dizer que se o Estado fosse cristão estaria bom? Ah! Quer dizer que os que “cultuam demônios” são bem intencionados, mas estão errados? Ah! Quer dizer que os muçulmanos, apesar de reprimirem os cristãos, têm um baita de um desconto no preconceito porque são monoteístas e não invocam espíritos? Ah! Quer dizer que os cristãos devem ir lá, converter os adeptos dos “cultos demoníacos” para Jesus porque senão eles vão para o inferno? Engraçado, pensei que Deus não fosse propriedade de ninguém.
Foi exatamente esse argumento que gerou o assassinato de mais da metade da população indígena da América Latina na época da colonização e as missões jesuíticas, que pelo menos mantiveram alguns índios vivos. “Converter para salvar”. Não seria melhor ter a Igreja ao lado da Taba e deixar que as pessoas escolhessem uma das duas?
Como se não bastasse, o intercâmbio musical entre a cliente e a manicure foi contaminado: a manicure entrega os CD’s para a cliente sem a capa. Imagina a cliente, provavelmente com perspicácia, que é medo. Medo de que a cliente possa fazer alguma “macumba”, pois é espírita. Contudo, o interessante é que a cliente foi espírita kardecista, e os espíritas kardecistas “não fazem macumbas” nem para o bem, nem para o mal, pois segundo sua crença “respeitam a vontade de Deus e dos seres humanos”. Apesar disto, mesmo que a cliente fosse da umbanda ou do candomblé não praticaria nenhuma mágica desejando bem ou mal para a manicure, primeiro por não desejar-lhe mal, segundo por ver na manicure uma descrente. E no final das contas parece-lhe que nem mesmo há razão para tamanha prevenção, tamanho preconceito, já que a magia negra (a que se dá o poder de desejar o mal para alguém) é própria apenas de um pequeno grupo, chamado quimbanda. De qualquer jeito, acho que é hora de dar um fim ao intercâmbio, não dá para sofrer preconceito voluntariamente.
Os religiosos defendem suas respectivas religiões. Como boa liberal, digo que está certo, eles têm esse direito –desde que não se matem por isso, nem obriguem ninguém a crer junto com eles, nem humilhem alguém por não crer junto com eles... (Quando isso acontecerá???).Todavia, também como boa liberal, defendo outra coisa que julgo seria bem melhor para toda a humanidade: Abaixo a religião. Viva a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A religião nunca foi plural, é inverossímil esperar que no futuro seja.
Essas histórias só ilustram alguns motivos para indignação. A revolta portanto, surge do fato de que todo o preconceito, todas as atrocidades cometidas em nome de Deus, de Jesus, da bíblia... Nascem simultaneamente da ignorância e desse “achar-se melhor que o Outro” ou achar-se o “dono da verdade”. Talvez só varie o tipo de massacre, ou ideológico ou físico, ou qualquer outra coisa muito bem intencionada que se possa inventar. Eu não pertenço mais à religião alguma pois não sou melhor que ninguém por causa de Cristo, Confúcio, Buda, Moisés ou Maomé ou qualquer outro adjetivo laico, cultural ou religioso. Mas a gente sempre pensa que é.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Falsas amizades

Falso amigo não é somente aquele que deseja te enganar, interesseiro que quer se aproveitar de você. Falso amigo também é aquele que gosta de você, mas não o suficiente para te considerar, respeitar e ajuda-lo na hora precisa.

Este tipo de falsa amizade é a mais perigosa, pois é aquela em que você espera o carinho, mas ele não vem. Certamente você vai se decepcionar e sofrer por essa pessoa, mas ela não irá sofrer e se decepcionar com você. Provavelmente ela fará alguma coisa que te magoará profundamente, mas julgará que não foi nada demais.

Essas falsas amizades, assim como as primeiras (do enganador), devem ser descartadas. Obviamente causará mais dor descartar alguém que goste minimamente de você do que alguém que não gosta de jeito nenhum. Mas fiz isso, fiquei um tempo mais sozinha do que de costume e logo se desenvolveram novas amizades, com pessoas já conhecidas, e estas sim, verdadeiras. As desilusões com as falsas amizades podem nos levar a prejudicar as verdadeiras, a ter menos disposição para perdoar quem realmente nos ama.

Muitas vezes a falsa amizade surge de uma pré-concepção negativa que a pessoa faz a teu respeito. Ela fica presa a esta imagem negativa e não consegue enxergar quem você realmente é. Não abre o coração para te conhecer, para saber sua história, para te dar uma oportunidade de crescer a seus olhos. Aí a relação fica definitivamente envenenada. A barreira do preconceito se estabelece e fica, até que um dos dois (ou uma das duas) resolva libertar-se. Se quem se liberta é o preconceituoso (a) existe chance da falsa amizade tornar-se verdadeira. Porém, quando isso não acontece, a outra parte envenenada pelo sofrimento de não ser correspondida, deve tomar uma atitude diante da parte envenenada pela cegueira. É quando se termina uma boa amizade, contudo, insuficiente para enfrentar as vicissitudes da vida.

Como aprendi numa peça de teatro, a gente sempre se entrega às pessoas, por mais que evitemos isso. É impossível gente não se envolver. Então só nos resta aprender com isso e ter um pouco de sabedoria para não sofrer tanto da próxima vez. Para não esperar das pessoas mais do que elas podem nos dar.Uma medida que permitirá manter as falsas (fracas) amizades sem medo de ser infeliz com elas.

Fernanda Flávia Martins Ferreira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Kardecist Spiritism and Politic Culture

ABSTRACT

In the first chapter, we studied the doctrinal roots of the Kardecist spiritism in the 19th century. We verified strong identifications of the Spiritism with the European illuminist and liberal principles, especially from France, in the statements of Jean Jacques Rousseau, Montesquieu, Alexis of Tocqueville, and of the Englishman John Stuart Mill. This is an important consideration, as its Brazilian manifestation found
impediments, in the 19th and 20th centuries, - during the Empire, and after the
proclamation of the republic - both from the Catholic Church in particular, and from
the anti-liberalists in general. In the second chapter, we will map the moments of
tension between segmentation and union, in the spiritist field, its relationship with the Catholic hegemony, and, finally, the appearance of new matrices, starting from the decline of that hegemony. In the third chapter, we will make a travel into the spiritistic associative universe, its internal non-sacerdotal organization, based on forms of representation, vote, and discussion, and finally in the adhesion to democratic rules of conduction of the decisory processes. In the chapter four, we will deepen the matrix of the Third Sector and of the citizenship. We will also see that this
organization has to do with the New Associativism, that appeared in Brazil after the
redemocratization, in the decade of 1980s. We will deepen the analysis of its modernization and growing identification with the Third Sector, as well as the way in
which takes place the appropriation of the term “citizenship” to its language. Finally,
in the conclusion, we will see that the original political elaboration of the Kardecism is
combined with the public face of the actual spiritistic field, as well as its contribution
to the social democratization.

Key words: Kardecism, democracy, liberalism, field, identity, citizenship, third sector.

If you want to receive a copy of this work in full version send a requirement to jeanbizzy@hotmail.com .

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Maybe

domingo, 5 de outubro de 2008

Espiritismo Kardecista e Cultura Política

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de mestre em Ciência Política.
Orientadora: prof.ª Ana Maria Doimo.
Dissertação defendida em: 28 de agosto de 2008

Banca examinadora: Alexandre Antônio Cardoso, Bruno Pinheiro Wanderley Reis, Ana Maria Doimo


RESUMO

No primeiro capítulo tratamos das raízes doutrinárias do espiritismo kardecista no século XIX. Verificamos fortes identificações do Espiritismo como os princípios iluministas e liberais europeus, especialmente da França nos enunciados de Jean Jacques Rousseau, Montesquieu, Alexis de Tocqueville e do inglês John Stuart Mill. Constatação importante, na medida em que sua manifestação brasileira entre os séculos XIX e XX encontra entraves seja durante o Império, seja após a proclamação da república, tanto da Igreja Católica em particular, quanto dos antiliberais de um modo em geral. No segundo capítulo trataremos de mapear os momentos de tensão entre segmentação e união no campo espírita, seu relacionamento com a hegemonia católica, e, finalmente, o surgimento de novas matrizes a partir do declínio dessa hegemonia. No terceiro capítulo faremos uma incursão no universo associativo espírita, sua organização interna não-sacerdotal e baseada em formas de representação, voto, e discussão, enfim na adesão de regras democráticas de condução dos processos decisórios. No capítulo quatro aprofundaremos na matriz do Terceiro Setor e da cidadania. Veremos também o que essa organização tem a ver com o Novo Associativismo que surge no Brasil após a redemocratização na década de 1980. Aprofundaremos a análise de sua modernização e crescente identificação com o Terceiro Setor, bem como de que modo se dá a apropriação do termo “cidadania” a sua linguagem. E por fim, na conclusão, veremos no que a elaboração política original do kardecismo se coaduna com a face pública do campo espírita atual, bem como sua contribuição para a democratização social.

Palavras-chave: kardecismo, democracia, liberalismo, campo, identidade, cidadania, terceiro setor.

CONCLUSÃO

Existem afinidades entre o Espiritismo e a Política. O Espiritismo Kardecista é uma religião que valoriza conhecimento (Doimo, 2004), é favorável ao atendimento de uma das condições de Dahl para a democracia: o entendimento esclarecido –oportunidade dos membros de aprender e informar-se sobre políticas alternativas e suas prováveis conseqüências (2001: 50). Talvez por isso seja uma religião que se destaca pela escolaridade de seus fiéis. O conhecimento da doutrina, é provavelmente um dos principais motivadores para o engajamento em ações caritativas ou beneficentes.

O primeiro capítulo resultou da hipótese de que o espiritismo kardecista foi dotado de uma formatação liberal-democrática desde seus primórdios. O segundo capítulo tinha por hipótese de que a influência dessa origem liberal, embora ofuscada pela hegemonia católica, permaneceu no modo como esta religião se institucionalizou no Brasil. Além disso, baseamo-nos nessa trajetória de oscilações entre fragmentação e unidade, entre vertentes e interpretações, para afirmar que o campo espírita de origem européia é bastante propício a inovações por não se achar preso a uma hierarquia autoritária, por ter se organizado de modo descentralizado e por não considerar ciência e religião como opostos incompatíveis. O que confirmou essa hipótese foi justamente o encontro na bibliografia pertinente de novas vertentes constituídas por pessoas que abandonaram o campokardecista tradicional e a evidência de que no interior do próprio campo surgiam reflexões inovadoras em relação à assistência social. No terceiro capítulo procuramos testar concretamente a hipótese de que o campo espírita é capaz de formar pessoas numa cultura política democrática, tendo por ponto de partida a afinidade de Allan Kardec com clássicos iluministas. Adicionamos então mais evidências do potencial deste campo religioso para a democratização social, dimensão importante para o aprofundamento da democracia. A