Este é bem antigo, vem de uma pasta gorda de desenhos. Foi digitalizado numa época em que eu entendia dessas coisas menos ainda do que atualmente.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Acordando...
Este é bem antigo, vem de uma pasta gorda de desenhos. Foi digitalizado numa época em que eu entendia dessas coisas menos ainda do que atualmente.
Candidato a camisa da MEMJD
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Prefácio for Sílvia
Este texto não tem a pretensão de acrescentar algo novo ao pensamento científico e filosófico, sobre esta monografia, ou ao seu conteúdo específico. O objetivo aqui é empreender uma reflexão de cunho sociológico sobre o significado da ética e da moral.
Segundo o minidicionário Silveira Bueno ética é “parte da filosofia que estuda os deveres do homem para com Deus e a sociedade; deontologia; ciência da moral” e ético “adjetivo relativo aos costumes”. Por sua vez, moral é “parte da filosofia que trata dos costumes ou dos deveres do homem; conclusão moral que se tira de uma obra, de um fato, etc.; s.m, conjunto de nossas faculdades morais; o que há de moralidade em qualquer coisa; adj. Relativo aos bons costumes; relativo ao domínio espiritual (em oposição a físico ou material).”1
Evitemos confundir moral e costumes. Não tenho ao alcance um dicionário de sociologia, contudo vamos ao recurso do exemplo: o direito de primogenitura, que estipula a transmissão da herança ao filho mais velho, a escarradeira na sala de visitas, como objeto de uso e decoração, comer frango com as mãos, dividir a sociedade em nobres e plebeus, usar o teste de DNA para comprovar a paternidade de uma criança, dar a mão após um mês, beijar só depois de dois meses de namoro. Nem tampouco atribuir a moral o que é um valor:
“Os valores são(...)representações mentais, representações do que é bom, desejável, ideal, de como as coisas deveriam ser ou procurar ser; são preferências, inclinações, disposições para um estado considerado desejável.
São nossos valores, mais que nossos conhecimentos, que fazem de nós o que somos. Pois nossos conhecimentos quer sejam fatuais, conceituais ou teóricos, ganham seu sentido através de nossos valores(...).”2
Entretanto, valores e costumes estão intimamente ligados até a indistinção. Um valor pode ser moral, valores têm conseqüências morais e costumes são investimentos emocionais que marcam identidades pessoais e grupais a ponto de causar humilhação, um sofrimento moral, caso sejam violados. O valor pode ser a obtenção de bens independente de meios e um costume, como a pena de morte ou o suicídio em nome da honra, pode ser contrário a moral. Entretanto, em uma sociedade x, é imoral manter o autor de determinado crime vivo e em sociedade y, covardia é não matar-se após sofrer uma derrota. Valores mudam, costumes igualmente. Logo, no campo da moral é possível distinguir o que há de eterno e relativo?
Como religiosa diria que os Dez Mandamentos são base de toda moralidade e que, na medida que progredimos, amplia-se nosso senso moral, ou seja, as noções que temos de certo e errado, de bem e mal, e que aumenta, paralelamente, nossa liberdade e responsabilidade. Notem, nosso conhecimento é instável, não o que há para conhecer. As leis de Deus são imutáveis e perfeitas. As ações equivocadas partem do propósito em burlar a lei ou da ignorância em relação a ela. Como cientista social, este é o pretexto para um estudo comparativo cuja hipótese é a existência de princípios de conduta comuns a todas as culturas, o que seria bastante ousado da parte de qualquer pesquisador. Para não matar a questão nesta impossibilidade, antropologia. Geertz em seu texto “A transição para a humanidade” demonstra que a condição humana foi alcançada gradativamente, sem que houvesse um salto, um ponto crítico, no qual o tamanho do cérebro finalmente permitiu a criação da cultura e da vida social. Está em jogo a propriedade do pensamento, a ferramenta evolutiva de adaptação a tornar o animal fisicamente mais frágil, no praticamente mais forte. O pensamento é um ciclo aberto com capacidade de autocriação, pode ser fechado em si mesmo, mas esta não é a condição de sua existência, tanto quanto não é da história humana. A cultura não é apenas uma forma de adaptação ao meio, determinismo geográfico, senão haveria sempre a mesma cultura no mesmo ambiente, não haveria esquimós e lapões.
Este é o nó, a convergência das aflições. A moral não precisa da atividade intelectual para ser relativizada, já é relativa na sociedade. O cuidado a ser tomado é com a pulverização da noção de cultura, através da individualização do conceito de diversidade. Em alguns escritos de educação encontramos a barreira de classe na escola reduzindo a reprodução da herança recebida dos pais a ponto de não sabermos o que é devido a diferenças de personalidade, caráter individual e o que é devido à desigualdade de origem social, caráter estrutural. Estudos de trajetória escolar tratam das exceções, daqueles que se sobressaem apesar das dificuldades decorrentes da origem social. Afinal, qual a afinidade social e sociológica entre estas pessoas além de sua localização desfavorável e de sua crença no mérito e no esforço próprio, na democracia social para vencer?
A linguagem é um bom instrumento para transitar do individual ao social, sem cair no estruturalismo das marionetes ou no individualismo ingênuo, da liberdade total. Entretanto, melhor (e ligado a ela) que a lingüística no momento, será o conceito de representações coletivas de Mauss e Durkheim. Seu argumento é de que as categorias do entendimento, deduzir, induzir, definir não se devem somente a psicologia individual, são resultado de gênese social, pelo desenvolvimento da função classificadora. Esta consiste em agrupar animais, plantas, pessoas e circunstâncias em conjuntos ordenados por coordenação e subordinação, estabelecendo hierarquias do maior para o menor elemento, demarcando linhas, fronteiras nítidas por afinidade e oposição. A partir das formas primitivas de classificação encontradas em povos australianos demonstram como, apesar das peculiaridades de cada um, todos elaboraram classificações em torno dos totens pertencentes às metades tribais (fratrias) e seus respectivos clãs. A indistinção e as relações de parentesco e localização entre coisas, circunstâncias e pessoas revelaram o sociocentrismo, as relações sociais servindo de base às relações lógicas das coisas.
“A sociedade não foi simplesmente um modelo segundo o qual o pensamento classificador teria trabalhado; foram seus próprios quadros que serviram de quadros ao sistema. As primeiras categorias lógicas foram categorias sociais; as primeiras classes de coisas foram classes de homens nas quais tais classes foram integradas. Foi porque os homens estavam agrupados e viam-se em pensamento em forma de grupos que agruparam idealmente os outros seres, e as duas maneiras de agrupamento começaram a confundir-se a ponto de se tornar indistintas.”3
Mais que isso, as classificações analisadas abarcavam o universo, tomando proporções cosmológicas, dividindo as coisas em sagradas e profanas, favoráveis ou desfavoráveis, puras ou impuras, reunidas em um todo, pelo sentimento, obra afetiva. Embora distantes em seus fundamentos, tais classificações são análogas às classificações científicas e ambas destinadas a unificar o conhecimento, a tornar inteligíveis relações entre os seres. Contudo, seu conteúdo emocional é especialmente religioso, e o valor afetivo atribuído às idéias interfere decisivamente nos critérios de aproximação ou afastamento. A citação que farei sintetiza o problema central, posto que tomamos a moral, ou a moralidade, por sistema de classificação dos acontecimentos, das ações, dos sentimentos, coisas e pessoas nos eixos de bem x mal, certo x errado:
“Ora, a emoção é naturalmente refratária à análise ou, ao menos, dificilmente se presta a isto, porque é demasiado complexa. Sobretudo quando é de origem coletiva, desafia o exame crítico e lógico. A pressão exercida pelo grupo social sobre cada um de seus membros não permite que os indivíduos julguem livremente as noções que a própria sociedade elaborou e onde ela pôs alguma coisa de sua personalidade. Por isso, a história da classificação científica é, em última análise, a própria história das etapas no decurso das quais este elemento de afetividade social se enfraqueceu progressivamente, deixando sempre mais o lugar livre ao pensamento refletido dos indivíduos. Mas falta muito para que estas influências longínquas que acabamos de estudar tenham cessado de se fazer sentir em nossos dias.”4
Se as causas de um costume mudam, ou ele é extinto ou sofre alterações. Partir do pressuposto da moral relativa no tempo, no espaço, nas culturas, não significa subtrair sua autoridade. Não teríamos saído do lugar se não houvesse consenso. Sem consenso não há ação coletiva, social ou política. A unanimidade é burra, mas o consenso é necessário. Há uma distância considerável em aplicar a relatividade no esforço de respeito e convívio pacífico das diferenças e uma justificativa analítica de defesa da opinião própria como verdade integrante da essência do eu, direito individual inabalável, portanto inflexível. Nas emoções religiosas encontramos não só a ponte que põe em comunicação dois textos, mas também o componente moral, o aspecto normativo constituinte da própria sociedade, conforme Durkheim. Este afirma que as origens da religião confundem-se com a origem da sociedade.
“Não existe religião que não seja uma cosmologia ao mesmo tempo em que uma especulação sobre o divino. Se a filosofia e as ciências nasceram da religião, é que a própria religião começou por ocupar o lugar das ciências e da filosofia. Mas o que foi menos notado é que ela não se limitou a enriquecer com um certo número de idéias um espírito humano previamente formado; ela contribuiu também para formá-lo. Os homens não lhe deveram apenas uma notável parcela da matéria de seus conhecimentos, mas também a forma segundo a qual esses conhecimentos são elaborados.
Existe na base de nossos julgamentos, um certo número de noções essenciais que dominam toda a nossa vida intelectual; são aquelas que os filósofos desde Aristóteles, chamam de categorias do entendimento: noções de tempo, de espaço, de gênero, número, causa, substância, personalidade, etc. ...Elas são como quadros rígidos que encerram o pensamento: este parece não poder libertar-se delas sem se destruir... São como a ossatura da inteligência.”5
Onde há sociedade, há religião, onde há religião, há moral, mas nem tudo que é moral ou envolve moralidade, é religioso. Maquiavel ilustra isso no campo da política, Hobbes no campo do direito, Sílvia Maria no campo profissional (e a ética é um ramo da filosofia). Maquiavel, em seu livro “O Príncipe”, nos ensina a lógica do mal menor ou do menos mal. Não a lógica do bem. É melhor ser amado e respeitado, mas se não puder, seja temido. É melhor ser virtuoso, mas se não puder, aparente virtude. Se um grupo de pessoas ameaça o seu poder e a segurança da população do principado, melhor a morte de poucos, que a morte de muitos. Hobbes com o contrato social demonstra que ao Estado foi concedida, em termos weberianos, “o monopólio do uso da força física”. Seriados americanos abordam com freqüência e abundância estes assuntos nesta zona liminar de sacrifício e exaltação simultânea da lei. Quebrar uma janela, invadir um domicílio, libertar uma refém, grampear um telefone, gravar uma conversa, matar soldados inimigos, fingir ser outra pessoa, violar códigos de entrada e saída, explodir um navio cheio de gente contaminada por uma doença fatal e incurável... Bater em um homem indefeso e amalucado porque cometeu um crime e você é um policial indignado.
À parte o evolucionismo de Mauss e Durkheim, bem como o protesto fervoroso contra a corrupção, está claro, nem sempre é possível optar claramente entre céu e inferno.
O filme GATTACA serve de base para ilustrar esta discussão. Nele, um casal decide gerar seu primeiro filho através de um método pouco convencional: o sexo. Enquanto o normal para a época é encomendar o bebê em um laboratório, no qual são escolhidas as melhores características genéticas do casal para geração da criança e detalhes como cor dos olhos, da pele, textura e cor do cabelo. O menino mal acabou de sair do útero e deram uma probabilidade de 90% para doença cardíaca e outras estatísticas mórbidas, além de uma expectativa de vida de não mais que 30 anos. Ele fazia parte de uma classe de párias sociais aos quais eram reservadas funções consideradas inferiores no mundo do trabalho. E sempre perdia para o irmão mais novo, produzido em laboratório, quando nadavam no mar. Vincent sonhava com as estrelas e sentia-se um estranho na própria casa e com aqueles que deveriam ser sua família. Fazia parte de uma forma de exclusão social gerenciada pelo critério biológico.
Após abandonar os parentes trabalhou como faxineiro (limpou metade dos banheiros do estado...). Encaminhado ao centro de pesquisas espaciais, sentiu que nunca esteve tão perto e simultaneamente tão distante de seu sonho como naquele momento. Os testes de DNA tornaram-se integrantes do currículo nas entrevistas de admissão, embora a lei condenasse a discriminação entre os “filhos da fé” e os cientificamente elaborados. Até que Vincent recebeu uma proposta, corriqueira numa espécie de mercado negro: assumir a identidade de Jerome, um homem de patrimônio genético invejável, praticamente perfeito, no entanto, paralítico. Feito para ser o primeiro ganhou medalha de prata, não suportava a própria vida. Assim Vincent obteve um cargo na estação espacial. Utilizando o sangue, a urina e os resíduos corporais de Jerome nos exames feitos constantemente nos funcionários, na tentativa de evitar fraudes.
Ora, Vincent fez uma coisa duplamente feia: falsidade ideológica em busca da satisfação dos próprios interesses. E o que era mais terrível então, isto ou a eugenia daquela sociedade que, tendo escolha sobre a constituição genética humana, condenava as pessoas a partir de probabilidades (não certezas)? Ele representava todos os sonhos proibidos de seus semelhantes. Como mudar, alcançar uma verdade sem anular a outra? E de que forma distinguir o momento no qual uma verdade maior suplanta e faz com que outra se torne menor sem cair em cinismo, desculpismo ou na transgressão pura e simples?
1 SILVEIRA BUENO, Francisco. Minidicionário da língua portuguesa. 6ªEd. São Paulo: Lisa, 1992.
2 LAVILLE, Christian & DIONNE, Jean. A Construção do Saber. Editora UFMG e ArTmed. Tradução de Heloísa Monteiro e Francisco Settineri. Adaptação de Lana Mara Siman. Belo Horizonte- MG, 1999.
Foto do Sol
Núcleo montado com papel A4 comum, lápis de cor e canetas hidrocor laranja e vermelho e base de papelão.Céu de cartolina.
Raios montados com intertela (para fazer firmes golas e punhos de camisa) e tecido, costurados com linha de lã.
Confeccionado para o teatro A pipa e a flor, do Infomorro, em 2005.
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Ditado popular
- Mãe o Carlos me deu uma rasteira hoje quando eu tava com a bola bem na cara do gol!
- É...
- Quero ver se ele ia gostar se eu fizesse o mesmo com ele.
- Por que você não vem almoçar?
- A pia está cheia de vasilhas sujas, mãe.
- Pois então, imagine que a pia é o mundo. E você é o ralo.
- As vasilhas são as pessoas e os acontecimentos. A torneira é a vida.
- Veja só o que acontece...
- Os restos de comida ficam no ralo... Mas pera aí! Eu sou o ralo!
- Pois é. Não permita que a vida deixe restos em você meu filho. Entendeu?
- Falou véia. Ôooo...
- Vamos, antes que a comida esfrie.
Jean Bizzy
Valor
Reflexão
“Mas os cuidados deste mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições, entrando, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera.” Marcos 4.19
Valor
Os problemas e as situações dos outros podemos analisar. Dizer o que está certo, o que está errado. Selecionar quem merece ou não nosso respeito e consideração. Preocuparmo-nos, porque amamos a quem vemos sofrer.
Mas, o que sabemos realmente a respeito? Problemas dos outros, são sempre dos outros. Não quero incentivar o egoísmo, pelo contrário. Apenas afirmar uma coisa muito simples: não estamos no lugar do outro. Não lhes conhecemos os pensamentos, os sentimentos, as causas profundas e quem sabe pretéritas. Então qual a extensão do mal?
Vejamos André Luíz. Em um de seus livros, perguntou a seu instrutor porque não desfaziam logo o laço obsessivo que prendia duas criaturas: “Não podemos separar os dois irmãos sem seu mútuo consentimento. O passado que os prende não pode ser superado com violência”. Sexo e Destino por exemplo, é todo dedicado a solução de um desses problemas da alma. O livro inteiro para resolver o problema de uma moribunda que morre muito antes da última página? Não. Páginas e mais páginas para desatar eficazmente os equívocos de vários personagens ligados a ela. No plano espiritual, estes nossos amigos podem enxergar quem realmente somos, conhecer o teor de nossas ligações e a elevação de nossos sentimentos. Assim lamentam cada vez que nos afastamos deles a maior parte das vezes por nosso egoísmo e por nossa vaidade.
Problemas dos outros são sempre dos outros. Podemos nos colocar no lugar de alguém, contudo, nunca será a mesma coisa, embora consista em nobre exercício de compreensão. Aqui, onde estamos, não sabemos o que é ser um hebreu 5.000 anos antes de Cristo. O que é fazer parte de um povo escravizado. Não sabemos o que é esperar o príncipe dos exércitos para salvar seu povo e ter que aceitar que o salvador é um carpinteiro, em pleno domínio romano. Não sabemos o que é ser um suserano criado para julgar-se superior aos servos. Nem o que é ser burguês condenado pela Igreja por lucrar excessivamente. Quem sabe ter uma fogueira à sua espera porque descobriu a órbita terrestre em torno do sol? Ser sacerdote no séc.XVI, constantemente “convidado” a ceder a arrastamentos inferiores ou resistir e seguir os ensinamentos do Cristo.
Orgulho, egoísmo, vaidade, crueldade são defeitos, não valores. Valores são mais parecidos com prioridades. Não são sinônimos, contudo. O valor está ligado aos objetivos que nos regem a vida e a ação. É mais estável que a prioridade, que costumamos mudar periodicamente. A vida é feita de prioridades, dizemos. Pois os valores são a chave dessas prioridades. O valor é pessoal, social, histórico. Na maioria das vezes os valores estão ocultos pelo pouco conhecimento que temos de nossas próprias motivações. Pensando bem, se uma de nossas metas é o autoconhecimeto: O que valorizamos?
O valor é uma espécie de explicação que diz porque algo é nosso tesouro. Tesouro: algo muito importante para nós. Uma coisa pela qual somos capazes de sacrificar outra ou muitas outras. É uma questão de intensidade. Talvez por essa sutileza o valor esteja mais implícito do que explícito. Por trás dele pode estar a virtude ou o equívoco. Valores são combinações dos fatores fundamentais da dor ou da felicidade humana. O valor é um julgamento. E julgar o outro é dizer que os seus valores estão errados, os meus certos.
Logo, identificar o valor não se trata de fazer um juízo, dizendo que uma coisa é negativa porque não é a que julgamos positiva. Desculpem, pimenta nos olhos dos outros, é refresco, e muitas vezes, também é preconceito. A análise do valor não está aí, está na ordem do significado, entre a causa e o efeito.
Quem valoriza o eu crê que querer para si acima dos outros é a melhor forma de satisfazer seus desejos. Alguém que valoriza a ordem crê que a submissão é a melhor forma de mantê-la. Quem valoriza o paraíso crê que o sofrimento e a morte são os melhores meios de alcançá-lo. Quem valoriza meios e fins crê que conciliar o como e o porque é a melhor forma de cumpri-los. Quem valoriza a vida, quer preservá-la. E o mesmo valor muda conforme o tempo, o lugar e valores surgem conforme as épocas.
“Os valores são(...)representações mentais, representações do que é bom, desejável, ideal, de como as coisas deveriam ser ou procurar ser; são preferências, inclinações, disposições para um estado considerado desejável.
São nossos valores, mais que nossos conhecimentos, que fazem de nós o que somos. Pois nossos conhecimentos, quer sejam fatuais, conceituais ou teóricos, ganham seu sentido através de nossos valores(...).”1
Valores têm conseqüências morais. [1]
Fernanda Flávia Martins Ferreira
Grupo Espírita Irmã Ló,
11 de Abril de 2003.
Palestra Leis Morais
Progresso, Sociedade, Destruição e Conservação
Texto 1, favela
QUESTÕES PARA DISCUSSÃO:
1) Lembrando da máxima doutrinária: “Fora da Caridade não há salvação”, qual é o papel do movimento espírita diante do problema favela, inclusive na evangelização?
2) Sabemos que a Igreja católica, igrejas protestantes, pentecostais e neo-pentecostais possuem forte atuação nas instituições políticas especializadas. O que você pensa a respeito da atuação das mesmas e qual é o lugar do espiritismo nesse contexto?
3) Qual(is) a(s) idéia(s) que você possui das pessoas que moram nas favelas em relação à sua situação espiritual e ao seu ambiente?
4) Além de participação política nas esferas formais as igrejas, como a católica, envolvem-se em movimentos sociais (também políticos) como as missões jesuíticas, o “Deus, família e propriedade” (antes do Golpe de 64) ou a teologia da libertação. Diante disso e através de seus conhecimentos prévios, faça uma comparação entre a atuação católica e espírita.
5) Como conciliar o ideal cristão de família universal e as particularidades culturais?
Fa-ve-la
Morros e “abismos” políticos
A favela como tantas outras propostas de intervenção constitui historicamente um efeito inesperado da política do branqueamento, praticada pelos republicanos no início do séc. XX com o objetivo de aproximar o Rio de Janeiro do estilo das cidades européias.
A disparidade entre teoria e dinâmica social era tanto maior quanto maior o contraste dos morros com o ideal de urbanidade, gerando a concepção da favela como problema sanitário, como corpo estranho a ser extirpado ou uma espécie de doença social que passou a construir a imagem que se tinha e existe até hoje sobre seus moradores. Importante é demonstrar que, certos aspectos geográficos e organizacionais da arquitetura dos morros foram transpostos automaticamente para sua cultura e traduzidos em uma concepção preconceituosa do ser humano, revelando de maneira drástica a capacidade que valores difundidos socialmente possuem de intervir nos acontecimentos, criando e reforçando a relações de exclusão/inclusão entre estabelecidos (moradores dos bairros) e outsiders (moradores das favelas). Percebe-se então que a proximidade geográfica nem sempre corresponde à proximidade cultural embora, a despeito das negações, ocorressem contatos constantes entre favelados e membros das classes médias, alta e mesmo policiais –atestando que a favela é e era parte da cidade- nossa primeira contradição (imagem dicotômica entre cidade e favela, refinamento e selvageria X Interações sociais ou convívio entre diferentes classes sociais).
A criatividade cultural e política, a capacidade de luta e organização dos favelados revelou-se a partir da expulsão das populações pobres dos cortiços, fazendo prevalecer especificidades como a capoeira e com que surgissem outras, como o samba e as escolas de carnaval. Isso desmonta qualquer idéia de que seja necessária uma pedagogia civilizatória ou lavagem cerebral mediante mecanismos de manipulação ideológica, baseada em ilusória superioridade cultural. É preciso desmontar essa imagem de escória e de coitadinhos arraigada durante décadas e estabelecer distinção entre fórmulas de conduta individuais (moral) e a diversidade cultural a ser respeitada –esta não pode ser reduzida à primeira, incapaz de resolver por si só e de forma prática, os problemas sociais.
Favela era problema sanitário e de polícia, o lugar por excelência da desordem aos olhos das instituições e dos governos. Em seu artigo, Burgos revela as concepções da favela e dos favelados em jogo nas políticas públicas de intervenção dos parques proletários e mais tarde, do favela-bairro. Vamos sumariar 50 anos de história: a proposta dos parques operários surgiu na década de 40, durante o Estado Novo, no Rio de Janeiro capital. Foi uma abordagem sanitarista, autoritária e de caráter excludente confirmando e fortalecendo a ausência de direitos sociais e políticos para a população dos morros –cujo analfabetismo não lhes permitia votar e o trabalho fora do mercado formal não conferia direitos sociais. Este autor demonstra que o assunto era tratado como um problema moral e um problema político, começando pela atuação da igreja católica com a fundação Leão XIII, no intervalo entre 1947 e 1954. A experiência de remoção forçada para moradias de baixa qualidade nos parques proletários e os controles invasivos das liberdades individuais constituiu estímulo a mobilização política dos moradores, criando comissões e associações, elaborando a identidade do favelado. As intenções da Igreja eram de cristianização, persuasão, ao invés de coerção, além de incentivo a essa vida associativa nascente, através do diálogo e da compreensão, em vez de conflito político. Era ambígua sua postura, pois seu assistencialismo neutralizou a luta pelo acesso a bens públicos, colocando no lugar da crítica, a resignação. Tudo isso redundou na cooptação das lideranças das favelas onde atuava a fundação, ou seja, passaram a ser intermediários entre o governo e os favelados, não intermediários entre os favelados e o governo.
O fim das políticas remocionistas (a favela nem fazia parte do mapa da cidade em 1937) teve por mola propulsora o projeto pioneiro de urbanização da Codesco (Companhia de Desenvolvimento de Comunidades), elaborado por volta de 1968, com uma abordagem mais ampla do problema favela, reunindo arquitetos, economistas e sociólogos, defendendo: “a posse legal da terra, a necessidade de deixar que os favelados permanecessem próximos aos lugares de trabalho, e a valorização da participação dos favelados na melhoria dos serviços públicos comunitários e nos desenhos e construção das próprias casas” (Burgos, 2003:35). Sua tentativa foi abortada por nova onda remocionista e a resistência dos favelados continuou, através da Fafeg (federação de favelas cariocas). O Favela-Bairro surge na década de 90, acelerando a canalização, serviços de água, luz, esgoto e pavimentação nas favelas. Porém o autor considera que, pior que o déficit de direitos sociais referentes à infra-estrutura são os déficits de direitos civis e políticos. Em 1990, por exemplo, apenas 3,7% dos domicílios em favelas possuíam títulos de propriedade.
Percebemos ao longo desta descrição o quanto idéias pautadas pelo preconceito etnocêntrico e pela naturalização de posturas (do tipo: “as pessoas moram na favela porque querem”) são cultivadas socialmente, constituindo base para elaboração de condutas e legitimação das ações governamentais ou religiosas (nos casos mencionados). A favela vista como lugar do subumano, covil de bandidos e da imoralidade contribuiu para apartá-la politicamente do contexto da cidade e, portanto, da cidadania, pois tomou a forma de uma atitude de recusa e eliminação do estranho e do indesejado, embora ocorresse o movimento contrário pela inclusão das escolas de samba no programa oficial do carnaval ou pela chegada da capoeira ao asfalto (culturalmente). Esquecendo que a favela é um problema civil, político, social, urbano, sanitário, moral e penal (pelo mercado das drogas ilícitas), nenhum deles, isoladamente. Gera paradoxos sociais e sociológicos, dilema entre a esfera pública e a esfera privada.
Fernanda Flávia
Observação: texto escrito para discussão no "Seminário Acolher e Semear, levando o Evangelho a crianças de periferia", realizado no dia 2 demaio de 2004, no Grupo Fraterno Irmão Eustáquio. Rua Turfa, 59, Prado. BH-MG.
